Quando a mente sobe alto demais

Superioridade, corpo e sofrimento sob a ótica da
psicanálise
Por Psicanalista Alexandre Viana · Bach Foundation Registered Practitioner
(BFRP)
O ponto de observação acima da vida
Há pessoas que parecem habitar um ponto de observação acima da vida. Desse lugar, avaliam os outros, corrigem suas escolhas, identificam fraquezas e encontram vulgaridade, insuficiência ou indignidade em quase tudo. Poucas pessoas parecem lúcidas, maduras ou interessantes o bastante. Nenhuma relação corresponde inteiramente ao que deveria ser.
À primeira vista, essa posição pode parecer apenas arrogância. Sob a ótica da psicanálise, porém, ela também pode funcionar como um movimento defensivo: uma tentativa de elevar-se acima da dependência, da vulnerabilidade, do corpo e das imperfeições inevitáveis da experiência humana. A superioridade, nesse caso, não é somente uma conquista imaginada. É um refúgio.
A mente que tenta separar-se do corpo
A psicanálise não considera mente e corpo duas realidades inteiramente independentes. Em O ego e o id, Freud afirma que o eu é, antes de tudo, um eu corporal: constitui-se a partir de sensações, limites e da superfície do corpo. A vida psíquica não paira acima da existência orgânica; nasce de um corpo que sente prazer, dor, fome, excitação, cansaço e necessidade.
Por isso, talvez seja mais preciso falar não de uma incompatibilidade natural entre mente e corpo, mas de uma ruptura produzida na experiência. A mente passa a tratar o corpo como inconveniente: ele adoece, envelhece, deseja, depende e perde o controle. Enquanto a mente imagina poder compreender tudo, o corpo recorda que há limites que o pensamento não elimina.
Quanto mais o corpo apresenta esses sinais, mais a mente pode tentar elevar-se. Em vez de escutar, observa. Em vez de participar, analisa. Em vez de admitir dependência, julga aqueles de quem depende. Em vez de reconhecer sofrimento, constrói uma teoria sobre a inferioridade do mundo.
A superioridade como defesa contra a dependência
Melanie Klein ajuda a compreender esse movimento por meio das defesas maníacas, organizadas em torno de onipotência, controle, triunfo e desprezo. Elas procuram proteger o sujeito de experiências dolorosas de dependência, perda, culpa e necessidade de reparação.
Se o outro não tem valor, não preciso admitir o quanto necessito dele. Se é inferior, sua recusa não pode realmente me ferir. Se estou acima de todos, não preciso reconhecer o que recebi deles. O desprezo diminui o valor do objeto para diminuir a dor de depender dele.
Essa organização pode ter se formado em ambientes nos quais precisar significava submeter-se, errar significava ser ridicularizado ou admirar alguém parecia implicar perder valor. A mente encontra uma solução: não precisar de ninguém porque ninguém é suficientemente bom. Por algum tempo, isso protege. Depois, transforma a vida em privação.
Quando conhecer se transforma em ficar acima
Em Sobre a arrogância, Wilfred Bion relaciona a arrogância a perturbações da curiosidade, do conhecimento e da capacidade de aprender com a experiência. O problema não é possuir inteligência ou confiança intelectual. Surge quando o conhecimento deixa de ser encontro com a realidade e se converte em instrumento de domínio.
Aprender exige reconhecer que ainda não se sabe. Exige tolerar dúvida, surpresa, dependência e transformação. A pessoa pode acumular informações e perceber rapidamente as limitações alheias, mas recusar tudo aquilo que ameace sua organização defensiva. Conhece, porém não se deixa modificar pelo conhecimento.
O outro deixa de ser alguém capaz de ensinar e passa a servir como prova de uma tese previamente construída. Cada erro confirma a superioridade do observador. Quando a conclusão é invariavelmente a indignidade de todos, talvez já não exista investigação, mas repetição de uma defesa.
O ideal que condena o mundo
Em Introdução ao narcisismo, Freud descreve o ideal do eu: uma referência interna diante da qual a pessoa mede a si mesma. Ideais podem orientar projetos e favorecer desenvolvimento. O sofrimento aparece quando deixam de ser direção e se transformam em instância absoluta.
Pessoas reais são comparadas a figuras sem corpo, história ou contradição. Relacionamentos reais enfrentam uma harmonia imaginária sem conflitos. O próprio corpo é confrontado com uma imagem que não adoece, não envelhece e não deseja inconvenientemente. A realidade sempre perde porque é comparada com algo que não precisa existir.
A mente elevada exige que a vida apresente a coerência de uma ideia. Como a existência é ambivalente e imprevisível, ela parece inferior. A pessoa pode chamar de lucidez aquilo que, em certos momentos, é intolerância à imperfeição.
O olhar superior volta-se contra o próprio sujeito
Nenhuma pessoa permanece à altura de um ideal absoluto. O corpo falha, a atenção oscila, o desejo contradiz a razão e decisões produzem consequências imprevistas. Então o movimento revela sua crueldade: o olhar que considerava todos inferiores volta-se contra quem olhava.
Se a fragilidade alheia é desprezível, minha fragilidade também será. Se o erro do outro prova incompetência, meu erro provará que sou uma fraude. Se precisar é fraqueza, minhas necessidades serão vividas como humilhação.
Em O mal-estar na civilização, Freud descreve como a agressividade pode ser interiorizada e apropriada pelo supereu, que exerce contra o eu a severidade antes dirigida para fora. Superioridade e autodepreciação podem ser duas faces do mesmo sistema: quando próximo do ideal, o sujeito despreza; quando percebe sua distância, despreza a si mesmo. Não consegue simplesmente estar entre os outros.
Da crítica aos outros ao ataque contra si
Em Luto e melancolia, Freud observa que certas recriminações contra o próprio eu contêm acusações relacionadas a um objeto amado. Uma hostilidade que não encontra destino na relação pode retornar contra o sujeito, que passa a julgar a si como julgaria outra pessoa.
O movimento torna-se circular: a pessoa deseja e depende; a vulnerabilidade torna-se ameaçadora; para reduzi-la, desvaloriza o outro; o desprezo produz afastamento e solidão; a solidão confirma que ninguém é digno; ao perceber a própria necessidade, dirige o mesmo desprezo contra si. A mente sobe para não sofrer e, justamente por subir, produz novas formas de sofrimento.
O corpo como aquilo que desmente a fantasia
A mente pode construir uma posição de superioridade, mas o corpo não consegue habitá-la indefinidamente. Ele continua registrando solidão, medo, desejo, vergonha, exaustão e necessidade de contato. Isso não significa que todo sintoma corporal tenha origem psíquica; significa que o corpo pode participar da expressão de um conflito que a consciência tenta administrar pelo julgamento.
A pessoa afirma não precisar de ninguém, mas sofre quando não é procurada. Diz que todos são desinteressantes, mas sente falta de intimidade. Considera o mundo indigno, mas permanece dependente de seu reconhecimento. O corpo revela aquilo que a posição superior pretendia abolir: somos afetáveis.
Por que o sofrimento se torna o fruto predominante
A superioridade defensiva pode produzir alívio, coerência e proteção imediata. É importante reconhecer esse ganho, pois nenhuma defesa persiste sem exercer uma função. Quando se torna rígida, porém, seu resultado predominante é o sofrimento, porque exige uma tarefa impossível: eliminar falta, dependência, erro e ambivalência.
Para permanecer elevada, a mente precisa vigiar continuamente. Encontra defeitos antes de se envolver, antecipa decepções antes de desejar e preserva distância antes que a proximidade a transforme. Não há descanso, porque toda experiência pode revelar uma necessidade. Não há encontro, porque o outro precisa ser reduzido antes de adquirir importância.
Até as conquistas perdem valor. Se alcançadas, tornam-se apenas o mínimo esperado; se não alcançadas, confirmam a inferioridade do sujeito. A mente acredita ter construído um trono e descobre que construiu uma cela elevada.
Descer não significa rebaixar-se
O trabalho analítico não consiste em humilhar a pessoa, provar que ela é comum ou arrancar suas defesas. Isso apenas repetiria a mesma lógica vertical: alguém acima e alguém abaixo. A questão é compreender de que perigo essa elevação a protege.
O que aconteceria se outra pessoa tivesse algo a oferecer? Que sentimento surgiria ao depender dela? Que humilhação antiga está ligada a não saber? De quem é a voz que declara que ser humano nunca é suficiente?
A análise pode ajudar o sujeito a abandonar gradualmente a organização vertical da experiência. Não para trocar superioridade por inferioridade, mas para descobrir uma posição diferente: estar ao lado. Ao lado, é possível admirar sem desaparecer, discordar sem desprezar, receber sem submissão e reconhecer limites sem convertê-los em condenação.
A mente não precisa tornar-se menor. Precisa tornar-se habitável. Quando pensamento e corpo voltam a participar da mesma experiência, a vida deixa de ser um objeto inferior submetido a julgamento e volta a ser um lugar no qual o sujeito pode existir.
Vamos conversar?
Se a necessidade de estar acima tem produzido solidão, vigilância ou desprezo por suas próprias limitações, a análise pode oferecer um espaço para compreender a função dessa posição sem humilhá-la nem arrancar suas defesas.
Abra um espaço de escuta para si. Entre em contato para agendar um horário.
Referências conceituais
· BION, W. R. On Arrogance. International Journal of Psycho-Analysis, v. 39, 1958, p. 144-146.
· FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914).
· FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917).
· FREUD, Sigmund. O ego e o id (1923).
· FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930).
· KLEIN, Melanie. O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos (1940).
· LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu (1949).
· SEGAL, Hanna. Introdução à obra de Melanie Klein: defesas maníacas.